{"id":18403,"date":"2026-11-04T15:34:09","date_gmt":"2026-11-04T18:34:09","guid":{"rendered":"https:\/\/abrampa.org.br\/?p=18403"},"modified":"2026-11-04T15:37:48","modified_gmt":"2026-11-04T18:37:48","slug":"justica-anula-148-anos-depois-demissao-de-promotor-que-enfrentou-poder-politico-para-defender-crianca-escravizada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/abrampa.org.br\/en\/justica-anula-148-anos-depois-demissao-de-promotor-que-enfrentou-poder-politico-para-defender-crianca-escravizada\/","title":{"rendered":"Justi\u00e7a anula, 148 anos depois, demiss\u00e3o de promotor que enfrentou poder pol\u00edtico para defender crian\u00e7a escravizada"},"content":{"rendered":"<div style=\"margin-top: 0px; margin-bottom: 0px;\" class=\"sharethis-inline-share-buttons\" ><\/div>\n<p><em>Senten\u00e7a reconhece trajet\u00f3ria de Celso Magalh\u00e3es como patrim\u00f4nio cultural imaterial do Maranh\u00e3o e determina sua reintegra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica aos quadros do Minist\u00e9rio P\u00fablico<\/em><br><br>Uma demiss\u00e3o motivada por retalia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ocorrida h\u00e1 quase um s\u00e9culo e meio, acaba de ser reconhecida como ilegal pela Justi\u00e7a. Em senten\u00e7a proferida em 29 de outubro de 2026, a Vara de Interesses Difusos e Coletivos de S\u00e3o Lu\u00eds declarou nula a demiss\u00e3o do promotor p\u00fablico Celso Tertuliano da Cunha Magalh\u00e3es, ocorrida em 1878, e reconheceu sua trajet\u00f3ria como patrim\u00f4nio cultural imaterial do Maranh\u00e3o. A decis\u00e3o tamb\u00e9m determinou sua reintegra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica aos quadros do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Estado, com a retirada da express\u00e3o \u201ca bem do servi\u00e7o p\u00fablico\u201d, utilizada \u00e0 \u00e9poca para justificar seu afastamento.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"775\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/abrampa.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/Captura-de-Tela-2026-11-04-as-3.33.58-PM-1-775x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-18412\" style=\"width:338px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/abrampa.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/Captura-de-Tela-2026-11-04-as-3.33.58-PM-1-775x1024.png 775w, https:\/\/abrampa.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/Captura-de-Tela-2026-11-04-as-3.33.58-PM-1-227x300.png 227w, https:\/\/abrampa.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/Captura-de-Tela-2026-11-04-as-3.33.58-PM-1-768x1015.png 768w, https:\/\/abrampa.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/Captura-de-Tela-2026-11-04-as-3.33.58-PM-1-150x198.png 150w, https:\/\/abrampa.org.br\/wp-content\/uploads\/2026\/11\/Captura-de-Tela-2026-11-04-as-3.33.58-PM-1.png 934w\" sizes=\"(max-width: 775px) 100vw, 775px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">O ato que determinou sua demiss\u00e3o, em 29 de mar\u00e7o de 1878, no Maranh\u00e3o. \u2014 Foto: Divulga\u00e7\u00e3o\/MPMA<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>A demiss\u00e3o foi uma retalia\u00e7\u00e3o \u00e0 atua\u00e7\u00e3o de Celso Magalh\u00e3es na acusa\u00e7\u00e3o criminal contra Ana Rosa Viana Ribeiro, esposa do ent\u00e3o governante da Prov\u00edncia do Maranh\u00e3o e futura Baronesa de Graja\u00fa. Ela era acusada de maus-tratos e sev\u00edcias que culminaram na morte de Inoc\u00eancio, um menino escravizado de apenas sete anos, em novembro de 1876.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo diante das press\u00f5es da elite pol\u00edtica e econ\u00f4mica da \u00e9poca, o promotor sustentou a acusa\u00e7\u00e3o e recorreu de uma decis\u00e3o que havia impedido a r\u00e9 de ser submetida ao Tribunal do J\u00fari. Seu recurso foi acolhido pelo Tribunal da Rela\u00e7\u00e3o do Maranh\u00e3o, garantindo o prosseguimento da a\u00e7\u00e3o penal.<br><br>A retalia\u00e7\u00e3o veio em 29 de mar\u00e7o de 1878, um dia depois de Carlos Fernando Ribeiro, marido da acusada, assumir a Presid\u00eancia da Prov\u00edncia. Celso Magalh\u00e3es foi sumariamente demitido. A senten\u00e7a reconheceu que o ato administrativo configurou desvio de finalidade e abuso de poder, uma vez que a autoridade utilizou sua compet\u00eancia para satisfazer fins pessoais ao punir o promotor pelo cumprimento de suas atribui\u00e7\u00f5es legais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e mem\u00f3ria institucional<\/strong><br><br>A a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica foi ajuizada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do Maranh\u00e3o em maio de 2026, por meio dos promotores de Justi\u00e7a Lu\u00eds Fernando Cabral Barreto J\u00fanior e Cl\u00e1udio Reb\u00ealo Correia Alencar. O pedido buscou a declara\u00e7\u00e3o de nulidade da demiss\u00e3o, a restaura\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do v\u00ednculo funcional e o reconhecimento da trajet\u00f3ria do promotor como patrim\u00f4nio cultural imaterial.<br><br>Na senten\u00e7a, o juiz Douglas de Melo Martins rejeitou os argumentos do Estado do Maranh\u00e3o sobre prescri\u00e7\u00e3o e impossibilidade de revis\u00e3o do ato, destacando que a demanda trata da prote\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria hist\u00f3rica e institucional, e n\u00e3o de direitos econ\u00f4micos individuais.<br><br>A decis\u00e3o determina que a Procuradoria-Geral de Justi\u00e7a e o Arquivo P\u00fablico do Estado fa\u00e7am as anota\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para registrar a nulidade da demiss\u00e3o e a reintegra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de Celso Magalh\u00e3es. A medida tem car\u00e1ter exclusivamente hist\u00f3rico e declarat\u00f3rio, sem gerar pagamentos retroativos, indeniza\u00e7\u00f5es ou repercuss\u00f5es previdenci\u00e1rias.<br><br>Para o promotor Lu\u00eds Fernando Cabral Barreto J\u00fanior, diretor de Assuntos Internacionais da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira dos Membros do Minist\u00e9rio P\u00fablico de Meio Ambiente (ABRAMPA), a decis\u00e3o reafirma o compromisso que deve orientar a atua\u00e7\u00e3o dos integrantes do Minist\u00e9rio P\u00fablico:<br><br>\u201cA hist\u00f3ria de Celso Magalh\u00e3es nos lembra que a independ\u00eancia do Minist\u00e9rio P\u00fablico n\u00e3o \u00e9 apenas uma garantia institucional, mas um compromisso com a sociedade. Defender direitos, especialmente de quem est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de maior vulnerabilidade, exige coragem para enfrentar interesses poderosos, mesmo quando isso implica riscos pessoais. A repara\u00e7\u00e3o de sua mem\u00f3ria \u00e9 tamb\u00e9m um reconhecimento de que a \u00e9tica e a fidelidade \u00e0 justi\u00e7a devem estar acima das conveni\u00eancias do poder.\u201d<br><br>Celso Magalh\u00e3es morreu em 1879, aos 29 anos, pouco depois de sua demiss\u00e3o. Tornou-se patrono do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Maranh\u00e3o e uma refer\u00eancia na hist\u00f3ria jur\u00eddica brasileira. A senten\u00e7a reconhece que sua trajet\u00f3ria ultrapassa a mem\u00f3ria institucional do \u00f3rg\u00e3o e integra o patrim\u00f4nio cultural do Estado. O pr\u00f3prio Departamento de Patrim\u00f4nio Imaterial da Secretaria de Estado da Cultura j\u00e1 havia emitido parecer t\u00e9cnico favor\u00e1vel ao reconhecimento.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Senten\u00e7a reconhece trajet\u00f3ria de Celso Magalh\u00e3es como patrim\u00f4nio cultural imaterial do Maranh\u00e3o e determina sua reintegra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica aos quadros do Minist\u00e9rio P\u00fablico Uma demiss\u00e3o motivada por retalia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ocorrida h\u00e1 quase um s\u00e9culo e meio, acaba de ser reconhecida como ilegal pela Justi\u00e7a. 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